segunda-feira, 31 de maio de 2010

Publicidade Infantil x Ética Moral

 Existem várias maneiras de avaliar o uso da publicidade infantil agregado aos valores culturais. Mas, não há decência em usar de todo e qualquer método de persuasão para cativar a vontade de consumir das crianças.

Analisando pelo lado ético e moral, a infância é uma fase delicada em que se forma a personalidade e os valores dos futuros adultos. Quando isto se mistura à vontade das empresas em lucrar cada vez mais, deve haver um controle e, porque não, uma censura em prol da formação não tendenciosa ao consumo ideológico das crianças.


Em uma rede aberta, da qual bem colocou Edgard Rebouças, por meio de uma concessão pública, deve-se estar em primeiro lugar a vontade do povo. O capitalismo gerou novas realidades e não há como mensurar as conseqüências, porém é certo que os veículos de comunicação criam uma ideologia voltada ao consumo.


Antes, a publicidade vinha após a programação da TV, agora não há como controlar a absorção das propagandas, pois elas estão embutidas em todos os programas. Exemplo disso são os programas infantis que sorteiam jogos, enaltecendo as marcas.

Não é educativo uma criança cultivar a criatividade dentro de uma perspectiva excludente em que só participa daquela “realidade” quem tem condições financeiras de obter todos os novos jogos e marcas de roupas infantis divulgadas. A exposição das crianças em programas infantis com violência explícita também não é moral e nem um pouco educativo.

Bem como o Hugo Leonardo Fonseca cita em sua obra “a criança é imperfeita e precisa ser formada por modelos de ensino-aprendizagem e pelos conhecimentos determinados pelos adultos que representam o estágio mais evoluído de um ser humano”. Isto demonstra o quão frágil é esta fase e o quanto ela necessita de orientação, não cabendo aos empresários e publicitários e sim aos que querem a boa formação destas crianças.

Mas, claro que não devemos proibir a publicidade infantil, pois assim também estaríamos mascarando uma realidade que está presente em nosso cotidiano. As marcas e ideologias estão por toda parte e não só na televisão.


Portanto, temos que concordar que a maneira mais correta de lidar com estas situações é impor um controle sobre o material a ser divulgado e instruir as crianças, por meio dos educadores, a serem mais críticos e desvendarem os mitos que os veículos de comunicação nos incutem.


Quanto ao uso da televisão como forma de disseminação das informações e formação de opinião pública, há também de se refletir onde se encaixam as crianças nesta perspectiva. Afinal de contas, elas já possuem o ensino dos pais e dos educadores, complementadas à leitura que é aplicada em sala de aula.


Assim como disse o autor, “a criança também não se caracteriza como uma tábua rasa pronta para ser preenchida de conteúdos culturais”, e isso quer dizer que também tem o seu conteúdo a ser compartilhado com a sociedade e a somar. Isto significa que o que poderia ser maléfico, todo o conteúdo tendencioso e comercial da televisão, pode ser uma forma de munir estas crianças com a ferramenta da crítica e da reconstrução de idéias. Podemos até nos surpreender com os efeitos disso nas crianças e quem sabe até mudar a forma como se é feito a publicidade, ao tornarem-se adultas.


Portanto, existem duas formas de enxergar o uso da publicidade infantil e das tendências do mercado na programação voltada a este público. Basta analisarmos em que situação a criança se encontra quando está diante a televisão. Ou seja, se ela está vulnerável a absorver e incorporar como verdade absoluta, ou se a criança irá assistir, analisar e transformar em mais uma informação, desmascarando qualquer idealização do consumo exagerado.

Como a Starbucks salvou minha vida - Michael Gates Gill

O livro “Como a Starbucks salvou a minha vida” é um relato verídico de um homem da alta sociedade americana, de família rica e prestigiada, que ganhou um novo sentido na vida, aos 63 anos de idade, ao perder aquilo que mais estimava: o status social.

Ao ser demitido da J. Walter Thompson, uma das maiores agências de publicidade do Estados Unidos, Michael Gates Gill perdeu o status, a confiança da família (após ter um filho fruto de uma traição, seguido da separação com a mulher), entrou em falência com uma frustrada tentativa de manter um negócio próprio  e, como se não bastasse, descobriu um tumor no cérebro que comprometia sua audição.

Apesar da situação crítica e constrangedora em que se encontrava, quando os “amigos” o evitavam e um simples café lhe era tido como pequeno luxo, uma coincidência o fez conhecer a verdadeira essência da vida. O nome que o levou ao mais profundo abismo, surge em outra forma como uma nova esperança de vida: Thompson, sobrenome da jovem e negra Crystal, Gerente da Starbucks da Broadway, o convida para trabalhar na periferia, tornando-se a sua nova referência profissional.

Michael Gill, o publicitário bem sucedido, tornou-se Mike, o homem do ramo de cafés. Lavar banheiros, servir cafés, preparar diferente tipos de bebidas quentes, palestrar sobre o assunto e, enfim, conhecer pessoas de todas as realidades, que se tratavam com carinho e respeito, foi a sua nova e transformadora função nesta empreitada. Assim, compartilhou momentos com estas pessoas que tornaram-se mais que amigos, mas testemunhos das dificuldades e conquistas dos “parceiros” com os quais trabalhava.

Quando pensou que, aos 63 anos de idade e com um tumor na cabeça, não seria bom para negócio nenhum, descobriu o seu próprio valor refletido nas amizades de pessoas que jamais imaginara se aproximar. E viu que, apesar de ter perdido o status e a vida luxuosa da qual desfrutou desde a infância, reconquistou a confiança dos filhos e a autoestima com a seu novo círculo social. O relacionamento diário com os “parceiros” (como se tratam os funcionários da Starbucks) e clientes mudou o seu novo eu, agora mais humilde, mais simpático, mais humano e verdadeiro.

Esta história é um exemplo que, quando tudo parece ser o maior desastre de nossas vidas, aparecem as oportunidades e pessoas que realmente nos fazem felizes. “Eu sentia que a Starbucks ainda era mais valiosa para mim do que eu o era para a Starbucks. Então entreguei completamente minha vida a eles - física, mental e emocionalmente - e prometi, verbalmente e no papel, que estaria disponível sempre que precisassem de  mim.” (p. 163)

A Essência da Constituição - Ferdinand Lassalle

Esta obra explica, basicamente, o que vem a ser a constituição em seus dois conceitos: a constituição real e a constituição escrita. E, principalmente, Lassalle ensina como entender a diferença e as contradições entre uma e outra quando não estão sincronizadas, ou melhor, coerentes entre si.

Para explicar melhor, Lasselle faz uma comparação entre a constituição e a lei. Para assim, conseguirmos entender que a primeira é uma lei fundamental da nação e a segunda é uma lei comum, e, logo adiante, entender que é fundamental por prover de uma necessidade básica, sendo mutável em sua complexidade, e diretamente ligada à realidade da qual se insere.

Na idéia do autor, a constituição não pode ser imposta por um rei (referindo-se à Prússia na época da monarquia), nem imposta por nenhum dos poderes que constituem uma sociedade organizada, sendo ela a união de interesses dos poderes que regem um país.

Estes poderes, segundo ele, são o rei (o governante que detém o poder político e, com ele, o exército), a aristocracia (os nobres que detém o poder capital), a grande e pequena burguesia (que detém o comércio e as indústrias), os banqueiros (que funcionam como um sistema financeiro de crédito a um país)  e a classe operária (a mão-de-obra que compõe a massa) determinam os “fatores reais do poder que regem uma nação” (p.32).

Mas, se a constituição é um conjunto de interesses dos poderes podemos dizer que a constituição da qual nos referimos é a mesma constituição jurídica, impressa em um papel? Segundo Lasselle, sim ou não. A primeira é considerada a Constituição Real e a segunda a Constituição Escrita. Quando a primeira é repassada ao papel, trona-se o verdadeiro direito, sendo passível de punição a quem se opuser à ela.

Lasselle discorre sobre como este sistema funciona e porque um poder está implicitamente submetido ao outro, sem que um se sobreponha, de maneira muito radical, nos termos da constituição real. Apesar disto, algumas classes têm mais privilégios do que as outras, mesmo quando estão em minoria.

Sendo levados em consideração, nestes casos, aqueles que possuem poder financeiro e que, em conseqüência disto demonstram maior influência no Estado daqueles que compõe a maioria da população mas que, em contrapartida, são desprovidos de riquezas.

Já, para explicar o poder que o rei possui sobre uma nação por meio do exército e, ao mesmo tempo, a impotência deste mesmo diante outros poderes reunidos em um só interesse, Lasselle caracteriza-os como o poder organizado e o poder inorgânico. 

O exército está sob o comando do rei e pode ser acionado a qualquer momento, estando sempre pronto para a repressão. Já o poder que assume a sociedade unida não dispõe de organização, nem mesmo de estratégia quando há uma iminente batalha corporal, o que a deixa enfraquecida por não possuir os canhões do exército, apesar destes serem pagos e aperfeiçoados pelo próprio povo.

Assim, algumas nações são reprimidas por anos em uma constituição que não diz respeito à vontade da maioria. Mas, apesar de desorganizada, esta situação pode se reverter com a revolta da sociedade e com uma possível revolução.

Assim, a constituição real existe desde a época medieval, antes mesmo de pensarem em fazê-la por escrito. Ela não pode ser considerada uma invenção dos tempos modernos. Para referir-se a esta idéia, Lasselle nos lembra do século XVIII, quando o rei da França determinou que os agricultores não mais iriam trabalhar gratuitamente em construções de vias públicas e que todos, incluindo a nobreza, iriam pagar impostos para as tais realizações. Com isso, subitamente veio reação do parlamento, negando tal imposição e referindo-se à uma constituição que nem mesmo o rei poderia alterar.

Porém, nesta época, não existia um papel que expressasse aquilo que o parlamento se referia como constituição. O que demonstra os fatores reais do poder implícitos nas normas da França Medieval, um retrato da submissão do povo aos poderes reais da nação. Isto que eles consideram como lei fundamental, são precedentes, um legado deixado pelos antecessores como uma cultura implícita, uma tradição da qual o povo era sempre submisso. Considerada pelo autor, como a base constituinte do Direito Constitucional, as vezes expressas em pergaminhos, posteriormente levantando foros, as liberdades, os privilégios e os fatores reais que regiam aquele país.

Portanto, a constituição real sempre existiu, a diferença daquela época para a situação normativa dos países de hoje é a constituição escrita nas folhas de papel. E assim se deu pela constante transformação das necessidades e relações de poderes dentro de um país, pois, do contrário, bastava apenas reunir as normas pré-existentes em uma Carta Constitucional.

Assim, podemos entender que a constituição obedece e se adapta aos poderes existentes que se sobressaem. Num país pouco povoado da Idade Média, Lasselle explica que é instituída a constituição feudal, quando a nobreza ocupa a maior parte territorial fazendo o poder governamental de um príncipe ser submetido às vontades da classe. Exemplo que se adéqua, segundo ele, à maioria dos Estados da idade Média e à constituição prussiana.

Quando ocorre o contrário, numa Constituição Absolutista, da qual o príncipe detém o poder militar sem a instituição de uma norma escrita, da qual a nobreza não tem influência com a ascensão da burguesia em caminhos opostos à ela, dando força ao governo, é instaurado no país o “estado militar”.

Com a crescente urbanização causada pelo amadurecimento da burguesia, consequentemente a riqueza da mesma, esta percebe que está em maioria e que detém também um poder político. Assim, ela reflete sobre a necessidade de ser levada em consideração também e de não ser submetida às vontades do governo, querendo participar da governabilidade daquele país, em consenso com o príncipe. Assim surge a revolução burguesa, como aconteceu na Prússia, em 1848.

Portanto, entendemos que as normas impostas em uma constituição escrita só tem êxito por longos períodos quando está em consenso com a constituição real .  Do contrário, ela não funcionará por muito tempo em desacordo com as forças vitais da nação.

Visto todos estes aspectos propostos pelo autor, chega-se a uma idéia de constituição, que deve ser previamente pensada e analisada e não apenas redigida sobre pressão, que é alheia aos problemas de direito e sim dos poderes. Assim, ao ser levado em consideração a realidade do país, justificando-se pelos fatos reais e efetivos do poder, é obtido o respeito da nação por esta constituição. Estes são os critérios dos quais devemos saber sobre a criação de uma constituição verdadeira e coerente ás necessidades de um país.