terça-feira, 1 de junho de 2010

Resenha e Coluna - conceitos ou adaptações - José Marques de Melo

A resenha no Brasil, segundo Marques de Melo (1994), passou por um processo de adaptação ao jornalismo popular. Escrita por jornalistas sem nenhuma especialização crítica, ela se moldou num formato descritivo e publicitário. Geralmente escrita com o objetivo de lançar um novo produto cultural e incentivar o seu consumo. Os jornalistas ocuparam essa função, segundo o autor, porque os intelectuais da época se negaram a resenhar sem uma análise crítica.

Assim, o ‘resenhista’ passou a ser chamado de ‘crítico’ e sua resenha de ‘crítica’. Além disso, escrevia não mais para jornais, mas para boletins especializados e para um público seleto da burguesia intelectual. Para eles, a resenha é uma apreciação da arte ou do produto cultural e deve ser analisado sob a ótica universitária. Isto é, minuciosamente observada e criticada de acordo com o contexto do produto, levando em consideração que se trata de um bem cultural e não um produto novo a ser vendido.

Com o tempo, o público consumidor, a massa popular que busca produtos novos que os jornais apresentam, superou o público leitor. Os jornais passaram a noticiar os produtos culturais com a intenção de atrair clientes e não mais leitores. Melo defende a idéia de que o Brasil tem um público consumidor elevado. Isso dificultou os moldes da resenha tradicional e crítica a perpetuar nos meios de comunicação.

Segundo Todd Hunt (1974), a resenha deve informar o que há de novo no mercado, elevar o nível cultural despertando o senso crítico do leitor, reforçar a identidade comunitária, aconselhar se o produto é de qualidade alta ou baixa, estimular os artistas pelo seu desempenho, definir o que é novo, documentar historicamente e divertir, fazendo analogias a outras histórias num tom cômico.

Fraser Bond (1962) divide as resenhas em quatro tipos: resenha clássica, relatorial, panorâmica e impressionista. A clássica considera o novo correlacionando com o tradicional. A relatorial descreve a obra e opina implicitamente através da seleção dos detalhes. A Panorâmica compara a obra com as outras do mesmo tipo, época ou nível cultural e analisa o contexto histórico. A impressionista analisa a partir do efeito que a obra causa no crítico. Marques de Melo divide em dois métodos: clássico e impressionista, e diz que a forma relatorial ou panorâmica está segmentada dentro dos outros dois métodos, de acordo com o estilo do crítico. Todd Hunt caracteriza a resenha de duas formas:

“A crítica autoritária como aquela que se articula com ‘modelos históricos’ (julgando as obras que entram em circulação a partir dos modelos precedentes) e a crítica impressionista como aquela que decorre da ‘reação do crítico’ e se pauta pelos seus ‘próprios méritos’.” (HUNT, 1974)

O brasileiro Afrânio Coutinho descreve a resenha nas seguintes etapas: a) introdução da obra, b) informações do autor e da obra anterior, c) anedotas e analogias, d) opinião pessoal do crítico. Ele não considera sério o trabalho dos atuais resenhistas no Brasil e critica a falta de especialização ou conhecimento aprofundado deles para desempenhar essa função.

Melo concorda com a opinião de Coutinho e critica os jornalistas improvisados que refugiam-se na produção cultural como conhecedores do assunto e ocupam as cadeiras dos resenhistas especializados.  Artistas e escritores já criticaram os resenhistas brasileiros taxando-os de leigos que usam e abusam do ‘poder’ para criticar sem o mínimo de critérios e escrevem de acordo com seus interesses.

No jornalismo europeu e americano, as resenhas são feitas criteriosamente voltadas a agradar o público e produzidas por intelectuais que têm conhecimento específico daquilo que analisa. Atualmente, o Brasil estendeu a resenha aos programas culturais e ao âmbito televisivo.

1. Coluna
            
       Segundo Marques de Melo, há ambigüidades na caracterização do colunismo. A tendência de chamar toda seção fixa de coluna exclui os gêneros: comentário, crônica, resenha, etc. A coluna é, originalmente, uma matéria com até mil palavras e coincide com o tamanho do jornal que, na época, era o standart. Com o tempo, o número de caracteres foi diminuindo para 800 e depois 500. Normalmente, a coluna fica em diagramação vertical, de cima para baixo e, se necessário, à coluna vizinha.
Hoje a diagramação é vertical e com várias colunas. Rabaça e Barbosa (1978, p.102), descreve a coluna como uma

“seção especializada de jornal ou revista, publicada com regularidade, geralmente assinada, e redigida em estilo mais livre e pessoal do que noticiário comum. Compõe-se de notas, sueltos, crônicas, artigos ou texto-legendas, podendo adotar, lado a lado, várias dessas formas. As colunas mantêm um título ou cabeçalho constante, e são diagramadas geralmente numa posição fixa e sempre na mesma página, o que facilita a sua localização imediata pelos leitores”.

            Segundo Melo, a coluna cumpre hoje o papel de trazer a novidade, o furo, antes mesmo que a matéria do jornal. É uma espécie de paparazzo impresso. Geralmente traz a notícia com texto opinativo. As colunas são como os bastidores da notícia. Pinçando opiniões, trazendo curiosidades e orientando a opinião pública.
Fraser Bond (1978) diz que a coluna surgiu nos jornais da América do Norte devido à necessidade de agradar o público que já não queria mais matérias anônimas. Sentiu-se aí uma necessidade de dar nome ao jornalista e personalidade, não só relatando o acontecimento como se posicionando. A coluna então se caracterizou como um espaço pessoal vinculado ao posicionamento do jornalista.
A coluna, desde sua criação, tem quatro tipos: padrão, miscelânea, mexericos e bastidores da política. A padrão se dedica a assuntos editoriais de menor importância. Sugere tendências e direciona opiniões. A miscelânea foge do padrão, mistura prosa e verso, não se prende a um assunto específico e adere ao estilo cômico e sarcástico. A coluna mexericos é quase uma homenagem à alta sociedade. Conta o que se passa na elite e dá destaque ao que acontece na vida pessoal desse grupo.
Além disso, Fraser Bond explica outros tipos como: o editorial assinado (comentário), coluna de versos (não existe no Brasil), e coluna de leitores. A coluna deve ter um caráter informativo, mas geralmente vem com juízo de valor sutilmente entranhado nos textos. Por isso, tem uma característica persuasiva, formadora de opinião.
Apesar de ser de cunho jornalístico, ela se mantém nas relações públicas, projetando imagens, personalidades, marcas publicitárias e funciona como uma vitrine. O texto é normalmente leve, cômico e funciona bem como noticiário de ‘fofocas’.
Melo explica a sobrevivência do colunismo no Brasil como fruto da satisfação pessoal do leitor. Segundo ele, as pessoas se ‘alimentam’ da realidade dos que têm mais poder e estrelato. A satisfação em ver pessoas da alta sociedade em festas, com roupas lindas e ao mesmo tempo acompanhar todos os enlances pessoais delas: casamento, separação, brigas e aparições nos lugares mais badalados.
Outro quesito fundamental na sobrevivência do jornal para Marques de Melo é a formação de tendências na moda, no comportamento e nas escolhas. A coluna implanta o modismo, dando como referência pessoas famosas ali no reduto que a imprensa cobre. E serve também como um termômetro de notícias. Planta as notícias e colhe a reação. Isso ajuda na avaliação de decisões políticas ou empresariais.
            Edgar Morin chama o colunismo de ‘olimpismo moderno’. Como assuntos de futilidade, frivolidade e de mau gosto. Esse ‘olimpismo’ pode ser comparado com a indústria cultural, sua ‘fabricação cultural’ de cantores, atores e famosos que passam a ser imitados pela sociedade. Segundo ele, esse mecanismo dá sustentação às frustrações do leitor. Eles se alimentam da vida de quem está em fase de glamour e estrelato. 
            
          A novidade atual do colunismo é que o colunista não trabalha mais sozinho. Ele tem a ajuda dos repórteres na cobertura dos últimos acontecimentos. Nos Estados Unidos, segundo Melo descreve, esses profissionais perderam a vaga na imprensa e foram substituídos por agências produtoras de notícias fúteis que vendem suas notinhas.

O colunismo aparece no Brasil na década de 50 e não inova os moldes dos jornais, já que estes sempre tiveram seções dedicas à vida social da alta sociedade. A novidade é que, se antes o colunismo se restringia à elite, hoje ele cobre todos os assuntos da área jornalística. Atualmente, os tipos mais comuns na imprensa brasileira são: coluna social, coluna política, coluna econômica, coluna policial, coluna esportiva, coluna de livros, coluna de cinema, coluna de televisão, coluna de música, etc.

MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1994:125-145.

Do Golpe ao Planalto: uma vida de repórter - Ricardo Kotscho

Autobiografia Autorizada

A agitadíssima vida do jornalista Ricardo Kotscho rendeu um livro com 314 páginas que quase dão a volta ao mundo. Faro de repórter, procurado mais que animal silvestre em época de caça por grandes empresas jornalísticas, ele fez sua fama em cima da busca contínua de mudanças. O livro “Do Golpe ao Planalto: uma vida de repórter” descreve toda a trajetória de Kotscho. De foca (1964) à assessor do Presidente do Brasil (2002) ele passou por todas as dificuldades e mordomias de um jornalista. Conheceu indigentes e celebridades. Penou em dias frios e de pouco recursos e viveu intensamente os momentos de fartura.

Com sangue alemão, tem o trabalho como prioridade de vida. Sua família viveu momentos de guerra e de amor e a sua descendência forte e domínio da língua alemã renderam a ele ótimas propostas de emprego. Como jornalista, passou por todas as editorias e chegou a ser correspondente, ocupação que, segundo ele, era desejada por todos os seus colegas de trabalho. Mas o estrangeiro não o agradou muito e Kotscho construi sua carreira sobre solo brasileiro.

O livro é uma autobiografia, inclusive era esse o nome: “Autobiografia Autorizada” que Ricardo gostaria de nomear sua obra se não fosse a intervenção da editora. O enredo conta sua vida profissional e pessoal em um cenário político marcado pela inconstância e transição da ditadura à democracia. Sua forma de narrar os fatos é mais que uma declaração de amor à profissão. Muitas vezes, esse ofício o distanciou da família, mas isso só o incentivava a dar mais atenção e proteção às mulheres da sua vida: a mulher, Mara, e suas filhas: Mariana, Carolina, Laura e Isabel.

Dentre as suas andanças pelo Brasil afora, viu muita coisa acontecer e descobriu matérias onde menos se esperava. No Ceará, cobriu o desastre aéreo que matou o ex-presidente Castello Branco, em 1967 Em Brasília, investigou as mordomias dos superfuncionários, em 1976, matéria que rendeu o prêmio Esso de Jornalismo. Em 1984 participou bravamente na campanha das Diretas. Foi brilhante na série de reportagens que escreveu me Serra Pelada sobre a construção de Itaipu e a febre do ouro. Posteriormente, essa série virou livro.

No exterior morou na Alemanha e conheceu vários países da Europa. Cobriu o acontecimento da época: a morte de dois Papas (Paulo IV e João Paulo I) e a eleição de João Paulo II, na época, como correspondente do Jornal do Brasil a convite de Dorrit Harazim. Profissão que, segundo Kotscho, todos os seus amigos jornalistas cobiçavam. Mas ele, diferente de “suas mulheres”, como costumava chamar sua mulher e suas filhas, não gostou muito da experiência de ficar longe do Brasil. A sua agonia durou até ser chamado por Mino Carta para trabalhar na revista IstoÉ, onde se orgulha de ter tido sua própria linha editorial, ou seja, escrita a seu modo.

Ao longo de seu percurso pelas estradas do Brasil à procura de matéria, Ricardo Kotscho pescou variados assuntos interessantes de pessoas desconhecidas. Como por exemplo, o casamento de duas mulheres que foi descoberto, por acaso, numa batida policial. Aparentemente um casal normal, Ricardo Torres e Maria Rosa, moradores de Monte Santo de Minas a 460 quilômetros de Belo Horizonte, foi encontrados com vinte gramas de maconha. Ao dar a corriqueira batida policial, os militares se espantaram com a surpresa. “Sob a camisa, Ricardo usava um colete de elástico, que lhe comprimia o peito. Para espanto dos policiais que se encontravam na sala, ao ser retirado o colete saltou um par de seios rijos. Ricardo Torres era na verdade Misma Torres (...)” (KOTSCHO, 2006).

Apesar de não ser o seu forte, Kotscho trabalhou com jornalismo televisivo também. Depois de uma certa insistência por parte do diretor do programa Globo Rural, Humberto Pereira, o autor driblou o medo que sentia por microfones e câmeras e resolveu assumir um programa. Descobriu que na televisão também se escreve bastante, porém em outro estilo. Mas essa experiência não foi muito animadora e ele percebeu que sua aptidão estava nos impressos. Isso porque tinha que gravar muitas cenas até acertar, sua postura era torta diante as câmeras e sua entonação não ficava legal.

Foi na sua melhor fase como jornalista, bem empregado, bem remunerado e comandando um posto de responsabilidade no Jornal do Brasil, que Kotscho largou de ser repórter para ser assessor de Luis Inácio Lula da Silva. No início de carreira política, o líder sindical não tinha nada a seu favor a não ser a força de vontade. O PT era humilde, sem muitos recursos, o que dificultava a vida do assessor de imprensa frente aos grandes veículos de comunicação. Mas isso não desestimulou Kotscho, que mesmo em condições menos favoráveis, continuou sólido ao lado do candidato à presidência da República.

Como assessor, se sentiu honrado de participar na campanha da primeira eleição pra Presidente no Brasil, graças à queda da ditadura implantada no país. Além disso, Kotscho tem afinidade pelo Partido dos Trabalhadores (PT) fundado por sindicalistas, em 1980, e liderado por Lula. Mas, apesar disso, o autor se posiciona de maneira profissional e não faz nenhum tipo de jogada política para fazer parte deles. Na verdade, nem se afiliou ao partido. Ficou na posição de “repórter particular” de Lula. Segundo ele, sempre trabalhando com a verdade e contra a corrupção.

A partir do momento em que assumiu sua carreira ao lado de Lula, não parou mais de viajar. Na verdade, ele já viajava, mas nessa época foram viagens de negócios, encontros políticos e maior afastamento da família. A família, apesar disso, deu total apoio. Demorou um pouco até se acostumar com a nova função de assessor, e algumas vezes dava umas mancadas se comportando com repórter.

Mas não foram só flores as suas experiências de viagens. Um dos maiores problemas de Kotscho, além dos obstáculos da época em passar a matéria para a redação do jornal, era o medo de avião e precisou desse transporte muitas vezes. Também, pudera, escapou várias vezes da morte. Mais de duas vezes, alguém que voou com ele para algum lugar morreu de acidente aéreo curto tempo depois. Inclusive, em uma dessas viagem aéreas, Ulysses Guimarães acalmou ele com a afirmação: “Fica calmo, meu caro jornalista, avião comigo não cai” (KOTSCHO, 2006). Sorte que Kotscho não era vidente.

Foram dez anos de luta para se eleger a presidente da República. Ricardo Kotscho participou diretamente, e as vezes, indiretamente nessa caminhada política de seu amigo e companheiro Lula. Amizade essa que se formou quando Kotscho ainda era novo na profissão e cobria matéria de um tal de líder dos metalúrgicos em uma cidade até então desconhecida no interior paulista.

Do nascimento do partido do PT até a eleição de Lula, Kotscho aprendeu muito como assessor. Viveu experiências com outros repórteres cobrando e sentiu a pressão da imprensa. O que, quando fazia parte dela, não tinha tanta noção. A vitória de Lula foi uma conquista conjunta de toda a equipe de assessoria. O autor participou das farras e de todas as mordomias que agora eles dispunham por fazer parte da cúpula governamental do país. E viveu também as mentiras da imprensa que viraram verdade absoluta prejudicando o trabalho do assessor do presidente.

O livro, de uma maneira geral, aborda fatos políticos, sociais e culturais através da perspectiva de quem está a postos esperando tudo acontecer. Mostra o jornalismo como uma arte de ver o mundo, de estar presente e de saber passar aquilo para quem se ocupa com outras coisas. E, além disso, faz uma análise das dificuldades enfrentadas na época em que se passava matérias pelo telefone até a forma de lidar com a imprensa quando não se está mais dentro dela. 

KOTSCHO, Ricardo. Do Golpe ao Planalto: uma vida de repórter. São Paulo: Companhia das Letras, 2006

Mídia Local e suas Interfaces com a Mídia Comunitária - Cicilia M. Peruzzo

       
          A preferência por assuntos regionais dos receptores da mídia causou o surgimento de novos formatos comunicacionais a partir da valorização do local: a mídia local e a comunitária. Peruzzo analisa em seu texto o desenvolvimento dessas mídias, suas semelhanças e diferenças e o que cada uma representa no âmbito social que está sendo veiculada. A idéia de local não é delimitado ao espaço territorial, mas agregado ao conceito de identidade local daqueles que convivem próximos e compartilham dos mesmo problemas sociais. As duas mídias trabalham com a questão da proximidade (cotidiano das pessoas que compartilham o mesmo ambiente), singularidade (explora as particularidades locais), diversidade (denota as mútiplas diferenças) e familiaridade (seus elos foram construídos através da identidade histórica da comunidade).
           
            A mídia local pode ser caracterizada por seu formato comercial, assim como as grandes mídias, e explora os nichos de mercado que a região favorece. Trata de assuntos gerais da comunidade que está inserida como a violência local, tragédias, oportunidades de empregos, eventos, política local, problemas da cidade, etc. A mídia comunitária visa a mobilização social, os temas são voltados aos interesses específicos dos moradores da região: assuntos dos bairros, do trabalho, das movimentações populares e outros assuntos que não visam a comercialização, mas sim o apoio à comunidade.
           
            Na prática, algumas funções das duas formas de mídia se misturam. A mídia comunitária está dentro da mídia local, e algumas vezes a mídia local se 'apropria' desse conceito para ter credibilidade no que produz. O termo comunitário está condicionado a idéia de conteúdo confiável, sem manipulação nem sensacionalismo. Isso favorece a utilização dessa característica como estratégia e acaba por realizar mobilizações que cabem à comunidade e às associações fazerem.