terça-feira, 1 de junho de 2010

Do Golpe ao Planalto: uma vida de repórter - Ricardo Kotscho

Autobiografia Autorizada

A agitadíssima vida do jornalista Ricardo Kotscho rendeu um livro com 314 páginas que quase dão a volta ao mundo. Faro de repórter, procurado mais que animal silvestre em época de caça por grandes empresas jornalísticas, ele fez sua fama em cima da busca contínua de mudanças. O livro “Do Golpe ao Planalto: uma vida de repórter” descreve toda a trajetória de Kotscho. De foca (1964) à assessor do Presidente do Brasil (2002) ele passou por todas as dificuldades e mordomias de um jornalista. Conheceu indigentes e celebridades. Penou em dias frios e de pouco recursos e viveu intensamente os momentos de fartura.

Com sangue alemão, tem o trabalho como prioridade de vida. Sua família viveu momentos de guerra e de amor e a sua descendência forte e domínio da língua alemã renderam a ele ótimas propostas de emprego. Como jornalista, passou por todas as editorias e chegou a ser correspondente, ocupação que, segundo ele, era desejada por todos os seus colegas de trabalho. Mas o estrangeiro não o agradou muito e Kotscho construi sua carreira sobre solo brasileiro.

O livro é uma autobiografia, inclusive era esse o nome: “Autobiografia Autorizada” que Ricardo gostaria de nomear sua obra se não fosse a intervenção da editora. O enredo conta sua vida profissional e pessoal em um cenário político marcado pela inconstância e transição da ditadura à democracia. Sua forma de narrar os fatos é mais que uma declaração de amor à profissão. Muitas vezes, esse ofício o distanciou da família, mas isso só o incentivava a dar mais atenção e proteção às mulheres da sua vida: a mulher, Mara, e suas filhas: Mariana, Carolina, Laura e Isabel.

Dentre as suas andanças pelo Brasil afora, viu muita coisa acontecer e descobriu matérias onde menos se esperava. No Ceará, cobriu o desastre aéreo que matou o ex-presidente Castello Branco, em 1967 Em Brasília, investigou as mordomias dos superfuncionários, em 1976, matéria que rendeu o prêmio Esso de Jornalismo. Em 1984 participou bravamente na campanha das Diretas. Foi brilhante na série de reportagens que escreveu me Serra Pelada sobre a construção de Itaipu e a febre do ouro. Posteriormente, essa série virou livro.

No exterior morou na Alemanha e conheceu vários países da Europa. Cobriu o acontecimento da época: a morte de dois Papas (Paulo IV e João Paulo I) e a eleição de João Paulo II, na época, como correspondente do Jornal do Brasil a convite de Dorrit Harazim. Profissão que, segundo Kotscho, todos os seus amigos jornalistas cobiçavam. Mas ele, diferente de “suas mulheres”, como costumava chamar sua mulher e suas filhas, não gostou muito da experiência de ficar longe do Brasil. A sua agonia durou até ser chamado por Mino Carta para trabalhar na revista IstoÉ, onde se orgulha de ter tido sua própria linha editorial, ou seja, escrita a seu modo.

Ao longo de seu percurso pelas estradas do Brasil à procura de matéria, Ricardo Kotscho pescou variados assuntos interessantes de pessoas desconhecidas. Como por exemplo, o casamento de duas mulheres que foi descoberto, por acaso, numa batida policial. Aparentemente um casal normal, Ricardo Torres e Maria Rosa, moradores de Monte Santo de Minas a 460 quilômetros de Belo Horizonte, foi encontrados com vinte gramas de maconha. Ao dar a corriqueira batida policial, os militares se espantaram com a surpresa. “Sob a camisa, Ricardo usava um colete de elástico, que lhe comprimia o peito. Para espanto dos policiais que se encontravam na sala, ao ser retirado o colete saltou um par de seios rijos. Ricardo Torres era na verdade Misma Torres (...)” (KOTSCHO, 2006).

Apesar de não ser o seu forte, Kotscho trabalhou com jornalismo televisivo também. Depois de uma certa insistência por parte do diretor do programa Globo Rural, Humberto Pereira, o autor driblou o medo que sentia por microfones e câmeras e resolveu assumir um programa. Descobriu que na televisão também se escreve bastante, porém em outro estilo. Mas essa experiência não foi muito animadora e ele percebeu que sua aptidão estava nos impressos. Isso porque tinha que gravar muitas cenas até acertar, sua postura era torta diante as câmeras e sua entonação não ficava legal.

Foi na sua melhor fase como jornalista, bem empregado, bem remunerado e comandando um posto de responsabilidade no Jornal do Brasil, que Kotscho largou de ser repórter para ser assessor de Luis Inácio Lula da Silva. No início de carreira política, o líder sindical não tinha nada a seu favor a não ser a força de vontade. O PT era humilde, sem muitos recursos, o que dificultava a vida do assessor de imprensa frente aos grandes veículos de comunicação. Mas isso não desestimulou Kotscho, que mesmo em condições menos favoráveis, continuou sólido ao lado do candidato à presidência da República.

Como assessor, se sentiu honrado de participar na campanha da primeira eleição pra Presidente no Brasil, graças à queda da ditadura implantada no país. Além disso, Kotscho tem afinidade pelo Partido dos Trabalhadores (PT) fundado por sindicalistas, em 1980, e liderado por Lula. Mas, apesar disso, o autor se posiciona de maneira profissional e não faz nenhum tipo de jogada política para fazer parte deles. Na verdade, nem se afiliou ao partido. Ficou na posição de “repórter particular” de Lula. Segundo ele, sempre trabalhando com a verdade e contra a corrupção.

A partir do momento em que assumiu sua carreira ao lado de Lula, não parou mais de viajar. Na verdade, ele já viajava, mas nessa época foram viagens de negócios, encontros políticos e maior afastamento da família. A família, apesar disso, deu total apoio. Demorou um pouco até se acostumar com a nova função de assessor, e algumas vezes dava umas mancadas se comportando com repórter.

Mas não foram só flores as suas experiências de viagens. Um dos maiores problemas de Kotscho, além dos obstáculos da época em passar a matéria para a redação do jornal, era o medo de avião e precisou desse transporte muitas vezes. Também, pudera, escapou várias vezes da morte. Mais de duas vezes, alguém que voou com ele para algum lugar morreu de acidente aéreo curto tempo depois. Inclusive, em uma dessas viagem aéreas, Ulysses Guimarães acalmou ele com a afirmação: “Fica calmo, meu caro jornalista, avião comigo não cai” (KOTSCHO, 2006). Sorte que Kotscho não era vidente.

Foram dez anos de luta para se eleger a presidente da República. Ricardo Kotscho participou diretamente, e as vezes, indiretamente nessa caminhada política de seu amigo e companheiro Lula. Amizade essa que se formou quando Kotscho ainda era novo na profissão e cobria matéria de um tal de líder dos metalúrgicos em uma cidade até então desconhecida no interior paulista.

Do nascimento do partido do PT até a eleição de Lula, Kotscho aprendeu muito como assessor. Viveu experiências com outros repórteres cobrando e sentiu a pressão da imprensa. O que, quando fazia parte dela, não tinha tanta noção. A vitória de Lula foi uma conquista conjunta de toda a equipe de assessoria. O autor participou das farras e de todas as mordomias que agora eles dispunham por fazer parte da cúpula governamental do país. E viveu também as mentiras da imprensa que viraram verdade absoluta prejudicando o trabalho do assessor do presidente.

O livro, de uma maneira geral, aborda fatos políticos, sociais e culturais através da perspectiva de quem está a postos esperando tudo acontecer. Mostra o jornalismo como uma arte de ver o mundo, de estar presente e de saber passar aquilo para quem se ocupa com outras coisas. E, além disso, faz uma análise das dificuldades enfrentadas na época em que se passava matérias pelo telefone até a forma de lidar com a imprensa quando não se está mais dentro dela. 

KOTSCHO, Ricardo. Do Golpe ao Planalto: uma vida de repórter. São Paulo: Companhia das Letras, 2006

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