A resenha no Brasil, segundo Marques de Melo (1994), passou por um processo de adaptação ao jornalismo popular. Escrita por jornalistas sem nenhuma especialização crítica, ela se moldou num formato descritivo e publicitário. Geralmente escrita com o objetivo de lançar um novo produto cultural e incentivar o seu consumo. Os jornalistas ocuparam essa função, segundo o autor, porque os intelectuais da época se negaram a resenhar sem uma análise crítica.
Assim, o ‘resenhista’ passou a ser chamado de ‘crítico’ e sua resenha de ‘crítica’. Além disso, escrevia não mais para jornais, mas para boletins especializados e para um público seleto da burguesia intelectual. Para eles, a resenha é uma apreciação da arte ou do produto cultural e deve ser analisado sob a ótica universitária. Isto é, minuciosamente observada e criticada de acordo com o contexto do produto, levando em consideração que se trata de um bem cultural e não um produto novo a ser vendido.
Com o tempo, o público consumidor, a massa popular que busca produtos novos que os jornais apresentam, superou o público leitor. Os jornais passaram a noticiar os produtos culturais com a intenção de atrair clientes e não mais leitores. Melo defende a idéia de que o Brasil tem um público consumidor elevado. Isso dificultou os moldes da resenha tradicional e crítica a perpetuar nos meios de comunicação.
Segundo Todd Hunt (1974), a resenha deve informar o que há de novo no mercado, elevar o nível cultural despertando o senso crítico do leitor, reforçar a identidade comunitária, aconselhar se o produto é de qualidade alta ou baixa, estimular os artistas pelo seu desempenho, definir o que é novo, documentar historicamente e divertir, fazendo analogias a outras histórias num tom cômico.
Fraser Bond (1962) divide as resenhas em quatro tipos: resenha clássica, relatorial, panorâmica e impressionista. A clássica considera o novo correlacionando com o tradicional. A relatorial descreve a obra e opina implicitamente através da seleção dos detalhes. A Panorâmica compara a obra com as outras do mesmo tipo, época ou nível cultural e analisa o contexto histórico. A impressionista analisa a partir do efeito que a obra causa no crítico. Marques de Melo divide em dois métodos: clássico e impressionista, e diz que a forma relatorial ou panorâmica está segmentada dentro dos outros dois métodos, de acordo com o estilo do crítico. Todd Hunt caracteriza a resenha de duas formas:
“A crítica autoritária como aquela que se articula com ‘modelos históricos’ (julgando as obras que entram em circulação a partir dos modelos precedentes) e a crítica impressionista como aquela que decorre da ‘reação do crítico’ e se pauta pelos seus ‘próprios méritos’.” (HUNT, 1974)
O brasileiro Afrânio Coutinho descreve a resenha nas seguintes etapas: a) introdução da obra, b) informações do autor e da obra anterior, c) anedotas e analogias, d) opinião pessoal do crítico. Ele não considera sério o trabalho dos atuais resenhistas no Brasil e critica a falta de especialização ou conhecimento aprofundado deles para desempenhar essa função.
Melo concorda com a opinião de Coutinho e critica os jornalistas improvisados que refugiam-se na produção cultural como conhecedores do assunto e ocupam as cadeiras dos resenhistas especializados. Artistas e escritores já criticaram os resenhistas brasileiros taxando-os de leigos que usam e abusam do ‘poder’ para criticar sem o mínimo de critérios e escrevem de acordo com seus interesses.
No jornalismo europeu e americano, as resenhas são feitas criteriosamente voltadas a agradar o público e produzidas por intelectuais que têm conhecimento específico daquilo que analisa. Atualmente, o Brasil estendeu a resenha aos programas culturais e ao âmbito televisivo.
1. Coluna
Segundo Marques de Melo, há ambigüidades na caracterização do colunismo. A tendência de chamar toda seção fixa de coluna exclui os gêneros: comentário, crônica, resenha, etc. A coluna é, originalmente, uma matéria com até mil palavras e coincide com o tamanho do jornal que, na época, era o standart. Com o tempo, o número de caracteres foi diminuindo para 800 e depois 500. Normalmente, a coluna fica em diagramação vertical, de cima para baixo e, se necessário, à coluna vizinha.
Hoje a diagramação é vertical e com várias colunas. Rabaça e Barbosa (1978, p.102), descreve a coluna como uma
“seção especializada de jornal ou revista, publicada com regularidade, geralmente assinada, e redigida em estilo mais livre e pessoal do que noticiário comum. Compõe-se de notas, sueltos, crônicas, artigos ou texto-legendas, podendo adotar, lado a lado, várias dessas formas. As colunas mantêm um título ou cabeçalho constante, e são diagramadas geralmente numa posição fixa e sempre na mesma página, o que facilita a sua localização imediata pelos leitores”.
Segundo Melo, a coluna cumpre hoje o papel de trazer a novidade, o furo, antes mesmo que a matéria do jornal. É uma espécie de paparazzo impresso. Geralmente traz a notícia com texto opinativo. As colunas são como os bastidores da notícia. Pinçando opiniões, trazendo curiosidades e orientando a opinião pública.
Fraser Bond (1978) diz que a coluna surgiu nos jornais da América do Norte devido à necessidade de agradar o público que já não queria mais matérias anônimas. Sentiu-se aí uma necessidade de dar nome ao jornalista e personalidade, não só relatando o acontecimento como se posicionando. A coluna então se caracterizou como um espaço pessoal vinculado ao posicionamento do jornalista.
A coluna, desde sua criação, tem quatro tipos: padrão, miscelânea, mexericos e bastidores da política. A padrão se dedica a assuntos editoriais de menor importância. Sugere tendências e direciona opiniões. A miscelânea foge do padrão, mistura prosa e verso, não se prende a um assunto específico e adere ao estilo cômico e sarcástico. A coluna mexericos é quase uma homenagem à alta sociedade. Conta o que se passa na elite e dá destaque ao que acontece na vida pessoal desse grupo.
Além disso, Fraser Bond explica outros tipos como: o editorial assinado (comentário), coluna de versos (não existe no Brasil), e coluna de leitores. A coluna deve ter um caráter informativo, mas geralmente vem com juízo de valor sutilmente entranhado nos textos. Por isso, tem uma característica persuasiva, formadora de opinião.
Apesar de ser de cunho jornalístico, ela se mantém nas relações públicas, projetando imagens, personalidades, marcas publicitárias e funciona como uma vitrine. O texto é normalmente leve, cômico e funciona bem como noticiário de ‘fofocas’.
Melo explica a sobrevivência do colunismo no Brasil como fruto da satisfação pessoal do leitor. Segundo ele, as pessoas se ‘alimentam’ da realidade dos que têm mais poder e estrelato. A satisfação em ver pessoas da alta sociedade em festas, com roupas lindas e ao mesmo tempo acompanhar todos os enlances pessoais delas: casamento, separação, brigas e aparições nos lugares mais badalados.
Outro quesito fundamental na sobrevivência do jornal para Marques de Melo é a formação de tendências na moda, no comportamento e nas escolhas. A coluna implanta o modismo, dando como referência pessoas famosas ali no reduto que a imprensa cobre. E serve também como um termômetro de notícias. Planta as notícias e colhe a reação. Isso ajuda na avaliação de decisões políticas ou empresariais.
Edgar Morin chama o colunismo de ‘olimpismo moderno’. Como assuntos de futilidade, frivolidade e de mau gosto. Esse ‘olimpismo’ pode ser comparado com a indústria cultural, sua ‘fabricação cultural’ de cantores, atores e famosos que passam a ser imitados pela sociedade. Segundo ele, esse mecanismo dá sustentação às frustrações do leitor. Eles se alimentam da vida de quem está em fase de glamour e estrelato.
A novidade atual do colunismo é que o colunista não trabalha mais sozinho. Ele tem a ajuda dos repórteres na cobertura dos últimos acontecimentos. Nos Estados Unidos, segundo Melo descreve, esses profissionais perderam a vaga na imprensa e foram substituídos por agências produtoras de notícias fúteis que vendem suas notinhas.
O colunismo aparece no Brasil na década de 50 e não inova os moldes dos jornais, já que estes sempre tiveram seções dedicas à vida social da alta sociedade. A novidade é que, se antes o colunismo se restringia à elite, hoje ele cobre todos os assuntos da área jornalística. Atualmente, os tipos mais comuns na imprensa brasileira são: coluna social, coluna política, coluna econômica, coluna policial, coluna esportiva, coluna de livros, coluna de cinema, coluna de televisão, coluna de música, etc.
MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1994:125-145.
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