sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O USO DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO COMO PRINCIPAL FERRAMENTA DE ENSINO


RESUMO
Este artigo de revisão apresenta as ideias, problemáticas e possíveis soluções em torno da aplicação de tecnologia da informação, assim como ferramenta didática, no âmbito educacional brasileiro. As ideias aqui apresentadas baseiam-se em dois artigos científicos dos autores Márcio de Araújo Benedito/Márcia Cristina Moraes** e Elisa Wolynec***.

Palavras-chave: Tecnologia da Informação. Ensino Multimídia. Educação Inclusiva.

1 INTRODUÇÃO
No Brasil, já existem projetos em andamento sobre a implantação do sistema de tecnologia da informação, tanto como ferramenta de trabalho como disciplina de ensino, e sua aplicação na rede pública de ensino.

Um dos exemplos é o projeto da Prefeitura de Belo Horizonte que pretende, mais que informatizar as salas de aula, capacitar os alunos pela educação inclusiva e prepará-los de fato para o mercado de trabalho. (BENEDITO e MORAES, 2006).

Além de informatizar as salas e criar um ambiente de estudo mais amplo e multimídia, esta educação inclusiva necessita de treinamento e capacitação para os docentes. Enquanto as empresas investem pesado em transformar as ferramentas de trabalho e aperfeiçoar a produção, as escolas ainda não conseguem acompanhar o avanço por precisar de maior investimento financeiro, por parte do governo. E, quando alcança o nível tecnológico do mercado não há bons executores para manipulá-lo da forma mais adequada e produtiva.

Por isso, o Brasil possui escolas avançadas que tentam acompanhar esta necessidade, mas ainda é a minoria. Outra tendência é a inclusão de uma disciplina de Tecnologia da Informação para que supra os anseios do mercado em mão de obra especializada e apta aos recursos tecnológicos.

Além disso, incluir ferramentas desse nível ainda é um problema. Como afirma Elisa Wolynec (2008, p.1), “na verdade, a principal razão é que o corpo docente goza de ampla autonomia e seus integrantes possuem diferentes níveis de habilidades técnicas e diferentes níveis de interesse na tecnologia. A grande variedade de disciplinas faz com que não haja uma forma simples de integrar a tecnologia da informação ao currículo. A receita não é única”.


2 O GRANDE DESAFIO DA TI NAS SALAS DE AULA

A distância entre a capacidade do corpo docente com sua infraestrutura tecnológica à educação inclusiva é ainda tão grande que os alunos se diferem uns dos outros. Aquele que possui acesso ao mundo virtual de casa, se torna mais apto quando se integra à empresa do que aquele que só obteve contato nos horários de uso do laboratório de informática da escola.

Para diminuir as deficiências, seria ideal que as escolas se adequassem com salas de aula equipadas à rede sem fio e que cada aluno possuísse seu próprio computador portátil. Assim, uso do “Personal Computer” (PC) chegaria ao alto nível de aproveitamento e a facilidade ao mundo virtual se torna um apoio pedagógico.

Várias escolas, que se integraram a este sistema, já incluem o preço do computador nas taxas anuais dos alunos. Assim como os alojamentos de estudantes que já possuem conexão com a rede da instituição. Quando todos os alunos possuem o mesmo tipo de ferramenta é mais fácil manter nivelado o aprendizado e a capacitação.

Porém, “o grande desafio está em treinar professores que tiveram sua formação profissional quando estas ferramentas não estavam disponíveis. Muitos erros foram cometidos nos investimentos em treinamento. Muitos verificaram que os docentes não compareciam aos cursos organizados para tal fim”. (WOLYNEC, 2008, p.2).

Por isso, é possível que em breve o corpo de docentes comece a receber profissionais mais integrados aos avanços tecnológicos por se tratar da nova geração. Isso talvez não demore muito, pois os jovens atuais ultrapassam barreiras da dificuldade e se integram em redes sociais em computadores coletivos.

3 EDUCAÇÃO INCLUSIVA E RESULTADOS

Escolas particulares possuem autonomia e o incentivo da concorrência para se adequarem às necessidades. Mas quando se trata de escolas do governo, a evolução no ensino depende de força política e de interesses cruzados, entre a necessidade e a relevância para o estado ou município.

Em Belo Horizonte, a implantação ocorreu por uma iniciativa da Secretaria de Administração “de enviar para todas as escolas um conjunto de equipamentos de informática e a instalação de infraestrutura de rede e de comunicação de dados” e dar suporte a uma grande operação que foi montada a partir de 2002. Este suporte foi necessário a implantação em 182 escolas de Belo Horizonte e um total superior a três mil equipamentos. (BENEDITO E MORAES, 2006, p. 10).

Para a execução, é necessário inserir o corpo docente nesta nova realidade e aproximar o plano de aulas e o conteúdo programático ao aluno, pela internet/intranet. A internet é uma ótima opção de estender a sala de aula aos alunos mais interessados.

Hoje, a maioria das faculdades possui a página do aluno na internet, mas as escolas municipais ainda encontram dificuldades em manter esta conexão, pois quando uma escola implanta, todas da mesma rede necessitam se adequar, o que gera muitos gastos ao poder público. Apesar da necessidade, o governo nem sempre prioriza os investimentos nesta área.


4 ATRASO NA IMPLANTAÇÃO: DESVANTAGENS E VANTAGENS

O Brasil, em termos gerais, está atrasado e muitos estados ainda não sabem como e quando irão se adequar à nova realidade do mercado de trabalho. A desvantagem é o atraso também na capacitação de mão de obra e a possível importação de inteligência quando as empresas não encontram aqui pessoal gabaritado para trabalhar com elas.

Além disso, a alfabetização virtual propõe novos caminhos profissionais e tornam o profissional mais autônomo. Hoje existem muitas profissões graças à tecnologia da informação. Não há necessidade de recorrer às bibliotecas longes, ou aos profissionais mais experientes, pois todo o tipo de conhecimento e inovações está compartilhado na internet.

Assim, os que possuem condições de se conectar a esta realidade em casa, ultrapassam barreiras que muitos ainda não conseguiram por falta de recursos. Quando a escola proporciona o acesso ilimitado e “gratuito”, os alunos crescem junto à escola e começam a se igualar em termos de conhecimento e preparo para a educação inclusiva.

A vantagem no atraso é que se pode usar métodos já testados e escolher o que mais se adéqua a realidade daquela instituição. (BENEDITO E MORAES, 2006, p. 29). Assim, há menor possibilidade de prejuízos com investimento em sistemas falidos. Em relação à infraestrutura é uma qeustão de recursos investidos e resultado imediato. Já a capacitação dos profissionais, demanda tempo além de recursos.

 Porém, quando há interesse por parte dos próprios profissionais, “é possível ensiná-los a criar cursos virtuais que devem ser usados, no início, para complementar o ensino tradicional, através da Intranet da instituição.

Eles vão se familiarizar com as práticas de vídeo conferência, colaboração em grupo, “chats”, organização de grupos de trabalho com reuniões periódicas e até a transformar apresentações de Power Point em vídeos com som, que podem reproduzir aulas e podem ser disponibilizados na Web”. (WOLYNEC, 2008, p.3).

Essa mudança iria propor novos conceitos em sala de aula e ensino. A Educação Inclusiva traz aos alunos um ambiente de acesso ilimitado ao conhecimento e propõe uma fonte de consulta a qualquer momento do dia.

Além de incluir o computador como material didático obrigatório e ajudar o financiamento dos mesmos pelos alunos, a inserção do celular ao mundo virtual também possibilita que os alunos sejam 100% conectados à sua rede de ensino, tornando esta uma nova escola.

Esta parceria pode propor uma nova relação entre corpo dicente e corpo docente, tornando o ensino mais atraente aos alunos.Uma vez dominadas essas tecnologias, não há limite para o que o talento da comunidade acadêmica pode produzir”. (WOLYNEC, 2008, p.5).
 
5 CONCLUSÃO
O uso da Tecnologia da Informação e sua implantação como principal ferramenta de ensino ainda não é o ideal no Brasil, mas já existem instituições preocupadas com isso. Enquanto escolas particulares tentam se adequar ao nível de capacitação exigida pelas empresas, algumas instituições públicas investem nisso há algum tempo, como a rede municipal de ensino de Belo Horizonte.

Porém, existem diversos processos até chegar num ambiente ideal de inclusão. Não basta equipar as escolas com computadores e laboratórios de informática. Elas necessitam se capacitar e utilizar-se destes equipamentos com propriedade, para que alcancem a Educação inclusiva.

Assim como os alunos devem aprender a dominar estas ferramentas, os professores precisam incluí-las como suporte operacional de ensino. A maior dificuldade é levar estes profissionais ao ápice do aproveitamento tecnológico quando estes não tiveram o acesso do mesmo no período de formação. Por isso, há uma certa urgência em mudar esta realidade para que os próximos profissionais já tenham esta capacitação aprimorada e aplicada em seu período escolar.

Os avanços em outros países ou outras regiões permitem aos atrasados que adquiram sistemas já testados e processos que obtiveram sucesso, diminuindo os riscos de prejuízo e de atraso na implantação do novo sistema 100% virtual e tecnológico de ensino.

REFERÊNCIAS

WOLYNEC, Elisa. O uso da Tecnologia da Informação no Ensino.  São Paulo: Techne, 2008.

BENEDITO, Márcio; MORAIS, Márcia. A Tecnologia da Informação nas Escolas da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte. São Paulo: Anal do XXVI Congresso da SBC, 2006.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Resenha e Coluna - conceitos ou adaptações - José Marques de Melo

A resenha no Brasil, segundo Marques de Melo (1994), passou por um processo de adaptação ao jornalismo popular. Escrita por jornalistas sem nenhuma especialização crítica, ela se moldou num formato descritivo e publicitário. Geralmente escrita com o objetivo de lançar um novo produto cultural e incentivar o seu consumo. Os jornalistas ocuparam essa função, segundo o autor, porque os intelectuais da época se negaram a resenhar sem uma análise crítica.

Assim, o ‘resenhista’ passou a ser chamado de ‘crítico’ e sua resenha de ‘crítica’. Além disso, escrevia não mais para jornais, mas para boletins especializados e para um público seleto da burguesia intelectual. Para eles, a resenha é uma apreciação da arte ou do produto cultural e deve ser analisado sob a ótica universitária. Isto é, minuciosamente observada e criticada de acordo com o contexto do produto, levando em consideração que se trata de um bem cultural e não um produto novo a ser vendido.

Com o tempo, o público consumidor, a massa popular que busca produtos novos que os jornais apresentam, superou o público leitor. Os jornais passaram a noticiar os produtos culturais com a intenção de atrair clientes e não mais leitores. Melo defende a idéia de que o Brasil tem um público consumidor elevado. Isso dificultou os moldes da resenha tradicional e crítica a perpetuar nos meios de comunicação.

Segundo Todd Hunt (1974), a resenha deve informar o que há de novo no mercado, elevar o nível cultural despertando o senso crítico do leitor, reforçar a identidade comunitária, aconselhar se o produto é de qualidade alta ou baixa, estimular os artistas pelo seu desempenho, definir o que é novo, documentar historicamente e divertir, fazendo analogias a outras histórias num tom cômico.

Fraser Bond (1962) divide as resenhas em quatro tipos: resenha clássica, relatorial, panorâmica e impressionista. A clássica considera o novo correlacionando com o tradicional. A relatorial descreve a obra e opina implicitamente através da seleção dos detalhes. A Panorâmica compara a obra com as outras do mesmo tipo, época ou nível cultural e analisa o contexto histórico. A impressionista analisa a partir do efeito que a obra causa no crítico. Marques de Melo divide em dois métodos: clássico e impressionista, e diz que a forma relatorial ou panorâmica está segmentada dentro dos outros dois métodos, de acordo com o estilo do crítico. Todd Hunt caracteriza a resenha de duas formas:

“A crítica autoritária como aquela que se articula com ‘modelos históricos’ (julgando as obras que entram em circulação a partir dos modelos precedentes) e a crítica impressionista como aquela que decorre da ‘reação do crítico’ e se pauta pelos seus ‘próprios méritos’.” (HUNT, 1974)

O brasileiro Afrânio Coutinho descreve a resenha nas seguintes etapas: a) introdução da obra, b) informações do autor e da obra anterior, c) anedotas e analogias, d) opinião pessoal do crítico. Ele não considera sério o trabalho dos atuais resenhistas no Brasil e critica a falta de especialização ou conhecimento aprofundado deles para desempenhar essa função.

Melo concorda com a opinião de Coutinho e critica os jornalistas improvisados que refugiam-se na produção cultural como conhecedores do assunto e ocupam as cadeiras dos resenhistas especializados.  Artistas e escritores já criticaram os resenhistas brasileiros taxando-os de leigos que usam e abusam do ‘poder’ para criticar sem o mínimo de critérios e escrevem de acordo com seus interesses.

No jornalismo europeu e americano, as resenhas são feitas criteriosamente voltadas a agradar o público e produzidas por intelectuais que têm conhecimento específico daquilo que analisa. Atualmente, o Brasil estendeu a resenha aos programas culturais e ao âmbito televisivo.

1. Coluna
            
       Segundo Marques de Melo, há ambigüidades na caracterização do colunismo. A tendência de chamar toda seção fixa de coluna exclui os gêneros: comentário, crônica, resenha, etc. A coluna é, originalmente, uma matéria com até mil palavras e coincide com o tamanho do jornal que, na época, era o standart. Com o tempo, o número de caracteres foi diminuindo para 800 e depois 500. Normalmente, a coluna fica em diagramação vertical, de cima para baixo e, se necessário, à coluna vizinha.
Hoje a diagramação é vertical e com várias colunas. Rabaça e Barbosa (1978, p.102), descreve a coluna como uma

“seção especializada de jornal ou revista, publicada com regularidade, geralmente assinada, e redigida em estilo mais livre e pessoal do que noticiário comum. Compõe-se de notas, sueltos, crônicas, artigos ou texto-legendas, podendo adotar, lado a lado, várias dessas formas. As colunas mantêm um título ou cabeçalho constante, e são diagramadas geralmente numa posição fixa e sempre na mesma página, o que facilita a sua localização imediata pelos leitores”.

            Segundo Melo, a coluna cumpre hoje o papel de trazer a novidade, o furo, antes mesmo que a matéria do jornal. É uma espécie de paparazzo impresso. Geralmente traz a notícia com texto opinativo. As colunas são como os bastidores da notícia. Pinçando opiniões, trazendo curiosidades e orientando a opinião pública.
Fraser Bond (1978) diz que a coluna surgiu nos jornais da América do Norte devido à necessidade de agradar o público que já não queria mais matérias anônimas. Sentiu-se aí uma necessidade de dar nome ao jornalista e personalidade, não só relatando o acontecimento como se posicionando. A coluna então se caracterizou como um espaço pessoal vinculado ao posicionamento do jornalista.
A coluna, desde sua criação, tem quatro tipos: padrão, miscelânea, mexericos e bastidores da política. A padrão se dedica a assuntos editoriais de menor importância. Sugere tendências e direciona opiniões. A miscelânea foge do padrão, mistura prosa e verso, não se prende a um assunto específico e adere ao estilo cômico e sarcástico. A coluna mexericos é quase uma homenagem à alta sociedade. Conta o que se passa na elite e dá destaque ao que acontece na vida pessoal desse grupo.
Além disso, Fraser Bond explica outros tipos como: o editorial assinado (comentário), coluna de versos (não existe no Brasil), e coluna de leitores. A coluna deve ter um caráter informativo, mas geralmente vem com juízo de valor sutilmente entranhado nos textos. Por isso, tem uma característica persuasiva, formadora de opinião.
Apesar de ser de cunho jornalístico, ela se mantém nas relações públicas, projetando imagens, personalidades, marcas publicitárias e funciona como uma vitrine. O texto é normalmente leve, cômico e funciona bem como noticiário de ‘fofocas’.
Melo explica a sobrevivência do colunismo no Brasil como fruto da satisfação pessoal do leitor. Segundo ele, as pessoas se ‘alimentam’ da realidade dos que têm mais poder e estrelato. A satisfação em ver pessoas da alta sociedade em festas, com roupas lindas e ao mesmo tempo acompanhar todos os enlances pessoais delas: casamento, separação, brigas e aparições nos lugares mais badalados.
Outro quesito fundamental na sobrevivência do jornal para Marques de Melo é a formação de tendências na moda, no comportamento e nas escolhas. A coluna implanta o modismo, dando como referência pessoas famosas ali no reduto que a imprensa cobre. E serve também como um termômetro de notícias. Planta as notícias e colhe a reação. Isso ajuda na avaliação de decisões políticas ou empresariais.
            Edgar Morin chama o colunismo de ‘olimpismo moderno’. Como assuntos de futilidade, frivolidade e de mau gosto. Esse ‘olimpismo’ pode ser comparado com a indústria cultural, sua ‘fabricação cultural’ de cantores, atores e famosos que passam a ser imitados pela sociedade. Segundo ele, esse mecanismo dá sustentação às frustrações do leitor. Eles se alimentam da vida de quem está em fase de glamour e estrelato. 
            
          A novidade atual do colunismo é que o colunista não trabalha mais sozinho. Ele tem a ajuda dos repórteres na cobertura dos últimos acontecimentos. Nos Estados Unidos, segundo Melo descreve, esses profissionais perderam a vaga na imprensa e foram substituídos por agências produtoras de notícias fúteis que vendem suas notinhas.

O colunismo aparece no Brasil na década de 50 e não inova os moldes dos jornais, já que estes sempre tiveram seções dedicas à vida social da alta sociedade. A novidade é que, se antes o colunismo se restringia à elite, hoje ele cobre todos os assuntos da área jornalística. Atualmente, os tipos mais comuns na imprensa brasileira são: coluna social, coluna política, coluna econômica, coluna policial, coluna esportiva, coluna de livros, coluna de cinema, coluna de televisão, coluna de música, etc.

MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1994:125-145.

Do Golpe ao Planalto: uma vida de repórter - Ricardo Kotscho

Autobiografia Autorizada

A agitadíssima vida do jornalista Ricardo Kotscho rendeu um livro com 314 páginas que quase dão a volta ao mundo. Faro de repórter, procurado mais que animal silvestre em época de caça por grandes empresas jornalísticas, ele fez sua fama em cima da busca contínua de mudanças. O livro “Do Golpe ao Planalto: uma vida de repórter” descreve toda a trajetória de Kotscho. De foca (1964) à assessor do Presidente do Brasil (2002) ele passou por todas as dificuldades e mordomias de um jornalista. Conheceu indigentes e celebridades. Penou em dias frios e de pouco recursos e viveu intensamente os momentos de fartura.

Com sangue alemão, tem o trabalho como prioridade de vida. Sua família viveu momentos de guerra e de amor e a sua descendência forte e domínio da língua alemã renderam a ele ótimas propostas de emprego. Como jornalista, passou por todas as editorias e chegou a ser correspondente, ocupação que, segundo ele, era desejada por todos os seus colegas de trabalho. Mas o estrangeiro não o agradou muito e Kotscho construi sua carreira sobre solo brasileiro.

O livro é uma autobiografia, inclusive era esse o nome: “Autobiografia Autorizada” que Ricardo gostaria de nomear sua obra se não fosse a intervenção da editora. O enredo conta sua vida profissional e pessoal em um cenário político marcado pela inconstância e transição da ditadura à democracia. Sua forma de narrar os fatos é mais que uma declaração de amor à profissão. Muitas vezes, esse ofício o distanciou da família, mas isso só o incentivava a dar mais atenção e proteção às mulheres da sua vida: a mulher, Mara, e suas filhas: Mariana, Carolina, Laura e Isabel.

Dentre as suas andanças pelo Brasil afora, viu muita coisa acontecer e descobriu matérias onde menos se esperava. No Ceará, cobriu o desastre aéreo que matou o ex-presidente Castello Branco, em 1967 Em Brasília, investigou as mordomias dos superfuncionários, em 1976, matéria que rendeu o prêmio Esso de Jornalismo. Em 1984 participou bravamente na campanha das Diretas. Foi brilhante na série de reportagens que escreveu me Serra Pelada sobre a construção de Itaipu e a febre do ouro. Posteriormente, essa série virou livro.

No exterior morou na Alemanha e conheceu vários países da Europa. Cobriu o acontecimento da época: a morte de dois Papas (Paulo IV e João Paulo I) e a eleição de João Paulo II, na época, como correspondente do Jornal do Brasil a convite de Dorrit Harazim. Profissão que, segundo Kotscho, todos os seus amigos jornalistas cobiçavam. Mas ele, diferente de “suas mulheres”, como costumava chamar sua mulher e suas filhas, não gostou muito da experiência de ficar longe do Brasil. A sua agonia durou até ser chamado por Mino Carta para trabalhar na revista IstoÉ, onde se orgulha de ter tido sua própria linha editorial, ou seja, escrita a seu modo.

Ao longo de seu percurso pelas estradas do Brasil à procura de matéria, Ricardo Kotscho pescou variados assuntos interessantes de pessoas desconhecidas. Como por exemplo, o casamento de duas mulheres que foi descoberto, por acaso, numa batida policial. Aparentemente um casal normal, Ricardo Torres e Maria Rosa, moradores de Monte Santo de Minas a 460 quilômetros de Belo Horizonte, foi encontrados com vinte gramas de maconha. Ao dar a corriqueira batida policial, os militares se espantaram com a surpresa. “Sob a camisa, Ricardo usava um colete de elástico, que lhe comprimia o peito. Para espanto dos policiais que se encontravam na sala, ao ser retirado o colete saltou um par de seios rijos. Ricardo Torres era na verdade Misma Torres (...)” (KOTSCHO, 2006).

Apesar de não ser o seu forte, Kotscho trabalhou com jornalismo televisivo também. Depois de uma certa insistência por parte do diretor do programa Globo Rural, Humberto Pereira, o autor driblou o medo que sentia por microfones e câmeras e resolveu assumir um programa. Descobriu que na televisão também se escreve bastante, porém em outro estilo. Mas essa experiência não foi muito animadora e ele percebeu que sua aptidão estava nos impressos. Isso porque tinha que gravar muitas cenas até acertar, sua postura era torta diante as câmeras e sua entonação não ficava legal.

Foi na sua melhor fase como jornalista, bem empregado, bem remunerado e comandando um posto de responsabilidade no Jornal do Brasil, que Kotscho largou de ser repórter para ser assessor de Luis Inácio Lula da Silva. No início de carreira política, o líder sindical não tinha nada a seu favor a não ser a força de vontade. O PT era humilde, sem muitos recursos, o que dificultava a vida do assessor de imprensa frente aos grandes veículos de comunicação. Mas isso não desestimulou Kotscho, que mesmo em condições menos favoráveis, continuou sólido ao lado do candidato à presidência da República.

Como assessor, se sentiu honrado de participar na campanha da primeira eleição pra Presidente no Brasil, graças à queda da ditadura implantada no país. Além disso, Kotscho tem afinidade pelo Partido dos Trabalhadores (PT) fundado por sindicalistas, em 1980, e liderado por Lula. Mas, apesar disso, o autor se posiciona de maneira profissional e não faz nenhum tipo de jogada política para fazer parte deles. Na verdade, nem se afiliou ao partido. Ficou na posição de “repórter particular” de Lula. Segundo ele, sempre trabalhando com a verdade e contra a corrupção.

A partir do momento em que assumiu sua carreira ao lado de Lula, não parou mais de viajar. Na verdade, ele já viajava, mas nessa época foram viagens de negócios, encontros políticos e maior afastamento da família. A família, apesar disso, deu total apoio. Demorou um pouco até se acostumar com a nova função de assessor, e algumas vezes dava umas mancadas se comportando com repórter.

Mas não foram só flores as suas experiências de viagens. Um dos maiores problemas de Kotscho, além dos obstáculos da época em passar a matéria para a redação do jornal, era o medo de avião e precisou desse transporte muitas vezes. Também, pudera, escapou várias vezes da morte. Mais de duas vezes, alguém que voou com ele para algum lugar morreu de acidente aéreo curto tempo depois. Inclusive, em uma dessas viagem aéreas, Ulysses Guimarães acalmou ele com a afirmação: “Fica calmo, meu caro jornalista, avião comigo não cai” (KOTSCHO, 2006). Sorte que Kotscho não era vidente.

Foram dez anos de luta para se eleger a presidente da República. Ricardo Kotscho participou diretamente, e as vezes, indiretamente nessa caminhada política de seu amigo e companheiro Lula. Amizade essa que se formou quando Kotscho ainda era novo na profissão e cobria matéria de um tal de líder dos metalúrgicos em uma cidade até então desconhecida no interior paulista.

Do nascimento do partido do PT até a eleição de Lula, Kotscho aprendeu muito como assessor. Viveu experiências com outros repórteres cobrando e sentiu a pressão da imprensa. O que, quando fazia parte dela, não tinha tanta noção. A vitória de Lula foi uma conquista conjunta de toda a equipe de assessoria. O autor participou das farras e de todas as mordomias que agora eles dispunham por fazer parte da cúpula governamental do país. E viveu também as mentiras da imprensa que viraram verdade absoluta prejudicando o trabalho do assessor do presidente.

O livro, de uma maneira geral, aborda fatos políticos, sociais e culturais através da perspectiva de quem está a postos esperando tudo acontecer. Mostra o jornalismo como uma arte de ver o mundo, de estar presente e de saber passar aquilo para quem se ocupa com outras coisas. E, além disso, faz uma análise das dificuldades enfrentadas na época em que se passava matérias pelo telefone até a forma de lidar com a imprensa quando não se está mais dentro dela. 

KOTSCHO, Ricardo. Do Golpe ao Planalto: uma vida de repórter. São Paulo: Companhia das Letras, 2006

Mídia Local e suas Interfaces com a Mídia Comunitária - Cicilia M. Peruzzo

       
          A preferência por assuntos regionais dos receptores da mídia causou o surgimento de novos formatos comunicacionais a partir da valorização do local: a mídia local e a comunitária. Peruzzo analisa em seu texto o desenvolvimento dessas mídias, suas semelhanças e diferenças e o que cada uma representa no âmbito social que está sendo veiculada. A idéia de local não é delimitado ao espaço territorial, mas agregado ao conceito de identidade local daqueles que convivem próximos e compartilham dos mesmo problemas sociais. As duas mídias trabalham com a questão da proximidade (cotidiano das pessoas que compartilham o mesmo ambiente), singularidade (explora as particularidades locais), diversidade (denota as mútiplas diferenças) e familiaridade (seus elos foram construídos através da identidade histórica da comunidade).
           
            A mídia local pode ser caracterizada por seu formato comercial, assim como as grandes mídias, e explora os nichos de mercado que a região favorece. Trata de assuntos gerais da comunidade que está inserida como a violência local, tragédias, oportunidades de empregos, eventos, política local, problemas da cidade, etc. A mídia comunitária visa a mobilização social, os temas são voltados aos interesses específicos dos moradores da região: assuntos dos bairros, do trabalho, das movimentações populares e outros assuntos que não visam a comercialização, mas sim o apoio à comunidade.
           
            Na prática, algumas funções das duas formas de mídia se misturam. A mídia comunitária está dentro da mídia local, e algumas vezes a mídia local se 'apropria' desse conceito para ter credibilidade no que produz. O termo comunitário está condicionado a idéia de conteúdo confiável, sem manipulação nem sensacionalismo. Isso favorece a utilização dessa característica como estratégia e acaba por realizar mobilizações que cabem à comunidade e às associações fazerem.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Publicidade Infantil x Ética Moral

 Existem várias maneiras de avaliar o uso da publicidade infantil agregado aos valores culturais. Mas, não há decência em usar de todo e qualquer método de persuasão para cativar a vontade de consumir das crianças.

Analisando pelo lado ético e moral, a infância é uma fase delicada em que se forma a personalidade e os valores dos futuros adultos. Quando isto se mistura à vontade das empresas em lucrar cada vez mais, deve haver um controle e, porque não, uma censura em prol da formação não tendenciosa ao consumo ideológico das crianças.


Em uma rede aberta, da qual bem colocou Edgard Rebouças, por meio de uma concessão pública, deve-se estar em primeiro lugar a vontade do povo. O capitalismo gerou novas realidades e não há como mensurar as conseqüências, porém é certo que os veículos de comunicação criam uma ideologia voltada ao consumo.


Antes, a publicidade vinha após a programação da TV, agora não há como controlar a absorção das propagandas, pois elas estão embutidas em todos os programas. Exemplo disso são os programas infantis que sorteiam jogos, enaltecendo as marcas.

Não é educativo uma criança cultivar a criatividade dentro de uma perspectiva excludente em que só participa daquela “realidade” quem tem condições financeiras de obter todos os novos jogos e marcas de roupas infantis divulgadas. A exposição das crianças em programas infantis com violência explícita também não é moral e nem um pouco educativo.

Bem como o Hugo Leonardo Fonseca cita em sua obra “a criança é imperfeita e precisa ser formada por modelos de ensino-aprendizagem e pelos conhecimentos determinados pelos adultos que representam o estágio mais evoluído de um ser humano”. Isto demonstra o quão frágil é esta fase e o quanto ela necessita de orientação, não cabendo aos empresários e publicitários e sim aos que querem a boa formação destas crianças.

Mas, claro que não devemos proibir a publicidade infantil, pois assim também estaríamos mascarando uma realidade que está presente em nosso cotidiano. As marcas e ideologias estão por toda parte e não só na televisão.


Portanto, temos que concordar que a maneira mais correta de lidar com estas situações é impor um controle sobre o material a ser divulgado e instruir as crianças, por meio dos educadores, a serem mais críticos e desvendarem os mitos que os veículos de comunicação nos incutem.


Quanto ao uso da televisão como forma de disseminação das informações e formação de opinião pública, há também de se refletir onde se encaixam as crianças nesta perspectiva. Afinal de contas, elas já possuem o ensino dos pais e dos educadores, complementadas à leitura que é aplicada em sala de aula.


Assim como disse o autor, “a criança também não se caracteriza como uma tábua rasa pronta para ser preenchida de conteúdos culturais”, e isso quer dizer que também tem o seu conteúdo a ser compartilhado com a sociedade e a somar. Isto significa que o que poderia ser maléfico, todo o conteúdo tendencioso e comercial da televisão, pode ser uma forma de munir estas crianças com a ferramenta da crítica e da reconstrução de idéias. Podemos até nos surpreender com os efeitos disso nas crianças e quem sabe até mudar a forma como se é feito a publicidade, ao tornarem-se adultas.


Portanto, existem duas formas de enxergar o uso da publicidade infantil e das tendências do mercado na programação voltada a este público. Basta analisarmos em que situação a criança se encontra quando está diante a televisão. Ou seja, se ela está vulnerável a absorver e incorporar como verdade absoluta, ou se a criança irá assistir, analisar e transformar em mais uma informação, desmascarando qualquer idealização do consumo exagerado.

Como a Starbucks salvou minha vida - Michael Gates Gill

O livro “Como a Starbucks salvou a minha vida” é um relato verídico de um homem da alta sociedade americana, de família rica e prestigiada, que ganhou um novo sentido na vida, aos 63 anos de idade, ao perder aquilo que mais estimava: o status social.

Ao ser demitido da J. Walter Thompson, uma das maiores agências de publicidade do Estados Unidos, Michael Gates Gill perdeu o status, a confiança da família (após ter um filho fruto de uma traição, seguido da separação com a mulher), entrou em falência com uma frustrada tentativa de manter um negócio próprio  e, como se não bastasse, descobriu um tumor no cérebro que comprometia sua audição.

Apesar da situação crítica e constrangedora em que se encontrava, quando os “amigos” o evitavam e um simples café lhe era tido como pequeno luxo, uma coincidência o fez conhecer a verdadeira essência da vida. O nome que o levou ao mais profundo abismo, surge em outra forma como uma nova esperança de vida: Thompson, sobrenome da jovem e negra Crystal, Gerente da Starbucks da Broadway, o convida para trabalhar na periferia, tornando-se a sua nova referência profissional.

Michael Gill, o publicitário bem sucedido, tornou-se Mike, o homem do ramo de cafés. Lavar banheiros, servir cafés, preparar diferente tipos de bebidas quentes, palestrar sobre o assunto e, enfim, conhecer pessoas de todas as realidades, que se tratavam com carinho e respeito, foi a sua nova e transformadora função nesta empreitada. Assim, compartilhou momentos com estas pessoas que tornaram-se mais que amigos, mas testemunhos das dificuldades e conquistas dos “parceiros” com os quais trabalhava.

Quando pensou que, aos 63 anos de idade e com um tumor na cabeça, não seria bom para negócio nenhum, descobriu o seu próprio valor refletido nas amizades de pessoas que jamais imaginara se aproximar. E viu que, apesar de ter perdido o status e a vida luxuosa da qual desfrutou desde a infância, reconquistou a confiança dos filhos e a autoestima com a seu novo círculo social. O relacionamento diário com os “parceiros” (como se tratam os funcionários da Starbucks) e clientes mudou o seu novo eu, agora mais humilde, mais simpático, mais humano e verdadeiro.

Esta história é um exemplo que, quando tudo parece ser o maior desastre de nossas vidas, aparecem as oportunidades e pessoas que realmente nos fazem felizes. “Eu sentia que a Starbucks ainda era mais valiosa para mim do que eu o era para a Starbucks. Então entreguei completamente minha vida a eles - física, mental e emocionalmente - e prometi, verbalmente e no papel, que estaria disponível sempre que precisassem de  mim.” (p. 163)

A Essência da Constituição - Ferdinand Lassalle

Esta obra explica, basicamente, o que vem a ser a constituição em seus dois conceitos: a constituição real e a constituição escrita. E, principalmente, Lassalle ensina como entender a diferença e as contradições entre uma e outra quando não estão sincronizadas, ou melhor, coerentes entre si.

Para explicar melhor, Lasselle faz uma comparação entre a constituição e a lei. Para assim, conseguirmos entender que a primeira é uma lei fundamental da nação e a segunda é uma lei comum, e, logo adiante, entender que é fundamental por prover de uma necessidade básica, sendo mutável em sua complexidade, e diretamente ligada à realidade da qual se insere.

Na idéia do autor, a constituição não pode ser imposta por um rei (referindo-se à Prússia na época da monarquia), nem imposta por nenhum dos poderes que constituem uma sociedade organizada, sendo ela a união de interesses dos poderes que regem um país.

Estes poderes, segundo ele, são o rei (o governante que detém o poder político e, com ele, o exército), a aristocracia (os nobres que detém o poder capital), a grande e pequena burguesia (que detém o comércio e as indústrias), os banqueiros (que funcionam como um sistema financeiro de crédito a um país)  e a classe operária (a mão-de-obra que compõe a massa) determinam os “fatores reais do poder que regem uma nação” (p.32).

Mas, se a constituição é um conjunto de interesses dos poderes podemos dizer que a constituição da qual nos referimos é a mesma constituição jurídica, impressa em um papel? Segundo Lasselle, sim ou não. A primeira é considerada a Constituição Real e a segunda a Constituição Escrita. Quando a primeira é repassada ao papel, trona-se o verdadeiro direito, sendo passível de punição a quem se opuser à ela.

Lasselle discorre sobre como este sistema funciona e porque um poder está implicitamente submetido ao outro, sem que um se sobreponha, de maneira muito radical, nos termos da constituição real. Apesar disto, algumas classes têm mais privilégios do que as outras, mesmo quando estão em minoria.

Sendo levados em consideração, nestes casos, aqueles que possuem poder financeiro e que, em conseqüência disto demonstram maior influência no Estado daqueles que compõe a maioria da população mas que, em contrapartida, são desprovidos de riquezas.

Já, para explicar o poder que o rei possui sobre uma nação por meio do exército e, ao mesmo tempo, a impotência deste mesmo diante outros poderes reunidos em um só interesse, Lasselle caracteriza-os como o poder organizado e o poder inorgânico. 

O exército está sob o comando do rei e pode ser acionado a qualquer momento, estando sempre pronto para a repressão. Já o poder que assume a sociedade unida não dispõe de organização, nem mesmo de estratégia quando há uma iminente batalha corporal, o que a deixa enfraquecida por não possuir os canhões do exército, apesar destes serem pagos e aperfeiçoados pelo próprio povo.

Assim, algumas nações são reprimidas por anos em uma constituição que não diz respeito à vontade da maioria. Mas, apesar de desorganizada, esta situação pode se reverter com a revolta da sociedade e com uma possível revolução.

Assim, a constituição real existe desde a época medieval, antes mesmo de pensarem em fazê-la por escrito. Ela não pode ser considerada uma invenção dos tempos modernos. Para referir-se a esta idéia, Lasselle nos lembra do século XVIII, quando o rei da França determinou que os agricultores não mais iriam trabalhar gratuitamente em construções de vias públicas e que todos, incluindo a nobreza, iriam pagar impostos para as tais realizações. Com isso, subitamente veio reação do parlamento, negando tal imposição e referindo-se à uma constituição que nem mesmo o rei poderia alterar.

Porém, nesta época, não existia um papel que expressasse aquilo que o parlamento se referia como constituição. O que demonstra os fatores reais do poder implícitos nas normas da França Medieval, um retrato da submissão do povo aos poderes reais da nação. Isto que eles consideram como lei fundamental, são precedentes, um legado deixado pelos antecessores como uma cultura implícita, uma tradição da qual o povo era sempre submisso. Considerada pelo autor, como a base constituinte do Direito Constitucional, as vezes expressas em pergaminhos, posteriormente levantando foros, as liberdades, os privilégios e os fatores reais que regiam aquele país.

Portanto, a constituição real sempre existiu, a diferença daquela época para a situação normativa dos países de hoje é a constituição escrita nas folhas de papel. E assim se deu pela constante transformação das necessidades e relações de poderes dentro de um país, pois, do contrário, bastava apenas reunir as normas pré-existentes em uma Carta Constitucional.

Assim, podemos entender que a constituição obedece e se adapta aos poderes existentes que se sobressaem. Num país pouco povoado da Idade Média, Lasselle explica que é instituída a constituição feudal, quando a nobreza ocupa a maior parte territorial fazendo o poder governamental de um príncipe ser submetido às vontades da classe. Exemplo que se adéqua, segundo ele, à maioria dos Estados da idade Média e à constituição prussiana.

Quando ocorre o contrário, numa Constituição Absolutista, da qual o príncipe detém o poder militar sem a instituição de uma norma escrita, da qual a nobreza não tem influência com a ascensão da burguesia em caminhos opostos à ela, dando força ao governo, é instaurado no país o “estado militar”.

Com a crescente urbanização causada pelo amadurecimento da burguesia, consequentemente a riqueza da mesma, esta percebe que está em maioria e que detém também um poder político. Assim, ela reflete sobre a necessidade de ser levada em consideração também e de não ser submetida às vontades do governo, querendo participar da governabilidade daquele país, em consenso com o príncipe. Assim surge a revolução burguesa, como aconteceu na Prússia, em 1848.

Portanto, entendemos que as normas impostas em uma constituição escrita só tem êxito por longos períodos quando está em consenso com a constituição real .  Do contrário, ela não funcionará por muito tempo em desacordo com as forças vitais da nação.

Visto todos estes aspectos propostos pelo autor, chega-se a uma idéia de constituição, que deve ser previamente pensada e analisada e não apenas redigida sobre pressão, que é alheia aos problemas de direito e sim dos poderes. Assim, ao ser levado em consideração a realidade do país, justificando-se pelos fatos reais e efetivos do poder, é obtido o respeito da nação por esta constituição. Estes são os critérios dos quais devemos saber sobre a criação de uma constituição verdadeira e coerente ás necessidades de um país.